20 de novembro é o dia Nacional da Consciência Negra. O Brasil escolheu essa data para lembrar Zumbi, líder do Quilombo de Palmares, símbolo da resistência negra do país.
Durante todo esse mês a data será lembrada em diversos eventos que irão celebrar a memória histórica do movimento, da presença e da inserção do negro na vida brasileira.
Ontem assisti uma entrevista maravilhosa com Zulu Araújo, no programa Roda Viva da TV Cultura, eu não o conhecia, mas pretendo guardar seu nome como uma das mais sensatas, coerentes e corajosas lideranças negras de que já tive conhecimento. Dedicado à cultura negra desde a juventude, Zulu Araújo foi produtor de eventos culturais em Salvador nos anos 80 e 90 e assessor especial da secretaria de Cultura da Bahia. Em 2007, Zulu assumiu a presidência da Fundação Cultural Palmares, onde já trabalhava como diretor desde 2003. Sua entrevista foi brilhante, demonstrou conhecimento, daquilo que defende. O que é o mínimo que se pode esperar das lideranças, quais forem. Falou das questões controversas sobre as ações afirmativas dos direitos dos negros na sociedade, após anos de discrepâncias, deixadas como herança de 400 anos de escravidão no Brasil. Desmistificou, com dados estatísticos, os argumentos daqueles que se colocam contra essas ações sob o pretexto que elas mais acentuam as diferenças do que diminuem. Outro dia mesmo, fui indagada por um advogado Gaúcho com quem me avizinho, queria saber se sou a favor ou contra as cotas para Negros nas universidades, Disse que não tinha opinião formada e precisaria estudar, enfim, fugi do debate. Ele se colocou contra e deu lá suas justificativas que nada justificavam. Pois é muito fácil falar de coisas que não se conhece. Criticar medidas das quais não se necessita e ignorar que existe um problema real que não se combate com a hipocrisia de acreditar que no Brasil não existe racismo. EXISTE SIM! E está tão internalizado em nosso inconsciente coletivo que, muitas vezes, sequer o identificamos.
Não vim aqui defender o atacar o sistema de cotas ou qualquer outra ação afirmativa. Concordo apenas, que elas são necessárias e tem demonstrado eficácia, pois não podemos negar, que criaram acesso às universidades para centenas ou milhares de negros, que antes, não tinham nenhuma perspectiva de futuro (salvo raras exceções). Zulu, na entrevista, fala também, sobre a questão do "mestiscismo" no Brasil, como uma forma de branqueamento da população. É aquela famosa frase - Não, ele não é negro!!!É mulato, é moreno, marrom bombom e afins... Lembrou-me uma situação recente em que descrevi uma pessoa como negra, próximo a uma outra pessoa, que também a conhecia, e esta pessoa, imediatamente interveio dizendo - Ela é Mulata! Aí eu disse, meu amor para mim passou de seis horas já é noite!!! É claro que, num primeiro momento, a frase parece preconceituosa, e de fato é, mas a minha intenção era apenas dizer que negro é negro e não vejo nenhum demérito e nem porque dar outra denominação, no sentido de tornar aceitável a convivência com o fato de que uma determinada pessoa é negra. Cheguei a fazer uma comparação com o Obama, que dizem que é o primeiro presidente negro dos EUA, ela é da mesma cor que ele. É Mestiça, como a maioria dos brasileiros, portanto negra, como a eu e você. Na mesma ocasião, falamos sobre outras formas de preconceito e racismo que estão incutidas e arraigadas na nossa sociedade, contra, negros, judeus e etc. O uso de expressões do tipo: "Você nem parece judeu, é tão simpático", "Ele é negro, mas é gente boa!" Como se fosse isso, uma exceção, não a regra. São muitas as nuances sobre este tema, não poderia esgotá-lo aqui, quero apenas, dar-lhe uma abordagem pessoal.
Refleti muito sobre o assunto, me lembrei da minha mãe, era filha de negra, meu avô era loiro de olhos azuis, agente da polícia federal, trabalhou para a ditadura militar e declarava aos quatro ventos sua antipatia por negros e pobres. Mas se casou com uma negra e com ela teve três filhos. Minha mãe era loira, tinha sardas, quase uma dinamarquesa, não fosse, os lindos cabelos crespos. Bem crespos!!!! Contava-me que seu pai lhe passava as mãos nos cabelos e dizia: - Meu sonho era passar as mãos nos cabelos da minha filha e não agarrar nos cachos! Nem preciso dizer que isso a traumatizou profundamente. Tanto que não me lembro de nenhum dia da minha vida, enquanto ela esteve viva, que não tenha ouvido o barulho do secador, enquanto ela passava horas na frente do espelho com o firme propósito de passar as mãos por entre os fios lisos e ela não agarrar!!!!Ainda vivia me dizendo:- Se um dia você arrumar um marido de cabelo duro, não vem com neto sarará, que eu não vou fazer trancinha com barbante em ninguém!!!Eu sofri muito para melhorar o cabelo da família, (na ocasião meu cabelo ainda era naturalmente liso), para você fazer essa sacanagem comigo. Quando contei a ela que beijei um grande amigo negro que eu tinha (e ainda tenho), ela quase caiu dura e eu virei piada para o resto da família. Era: “vai ter filho macaco para lá, vai comprar bananas para, cá etc. Esse mesmo amigo, anos depois, foi responsável pela realização de um dos seus maiores sonhos, pouco antes dela vir a falecer”.
É claro que tudo isso também me afetou, até hoje, não me interesso (sexualmente) por negros (e isso é racismo). Gosto de homens brancos de olhos castanhos e cabelos lisos. No melhor estilo almofadinha, embora meu marido não tenha este estereotipo, como gosto não se discute. Acho muitos negros e negras lindos, outros nem tanto, alguns são bem feios mesmo. Bem como, tem uns negros e negras que gosto, admiro e quero muito bem e outros que não quero nem passar perto. Mas assim também é com muitos brancos, qual a diferença?
Ainda ouço coisas do tipo “não tenho nada contra os negros até falo com eles”. Pérolas de uma sociedade que aprendeu a conviver com o racismo como algo intrínseco. E muito negro, não sei se, para serem aceitos ou numa forma de não ampliar ainda mais a distancia, toleram, aceitam e riem deste tipo de situação. É o negro Brasileiro, que assiste a tudo passivamente. Aquele que não tolera, é inconveniente e anti-social ou mais vulgarmente conhecido como barraqueiro.
O racismo, a xenofobia, os preconceitos de toda ordem. São os grandes males da humanidade. É isso que nos torna tão inferiores aos outros seres da cadeia alimentar, é a intolerância com o diferente, com o que nos parece uma ameaça. É o que nos torna menos dignos de viver neste planeta com tanta diversidade. É o que tem detonado guerras, há séculos, entre as sociedades e seus povos. É o que tem nos feito propagar por gerações e disseminar entre os nossos filhos aquilo que temos de pior.
Não sei se, algum dia, poderei me livrar do meu racismo. Meu cabelo ficou crespo depois que cresci, andei alisando mais me arrependi e agora ando no melhor estilo Black Power branquela!!!Resolvi assumir os cachos, talvez seja um primeiro passo. Entre outras coisas, sempre procuro olhar as pessoas além dos meus preconceitos, permitir que elas sejam o que são, para depois saber se vale à pena ou não tê-las na minha vida e para isso não levo em consideração a cor da sua pele. Procuro não prejulgar.
Mas acho que a maior contribuição que posso dar para o fim do racismo, é não fazer nunca, qualquer comentário racista perto da minha filha de seis anos, nenhuma piada. Nada que lance uma semente de preconceito na sua mente tão fértil, para que este mal não germine no seu coração. É permitir que ela seja capaz de distinguir o que é bom ou ruim no ser humano sem estigmatizar ninguém. Disso eu posso me orgulhar. Outro dia fiquei imaginando como seria se ela chegasse em casa, daqui alguns anos, com um namorado negão com cabelo rastafari, fiquei tentando prever qual seria minha reação. Graças a Deus, que posso pensar nisso e me preparar para aceitar, faz parte de um processo que não pretendo negar, uma quebra de preconceitos e paradigmas. Eu poderia até fazer trancinhas com barbante nos cabelos dos meus netos, faria com amor. Mas ela não sabe, pois já seria uma semente de preconceito lançada. O que desejo mesmo, é que se negro ou branco, seja um homem (ou mulher??? Quem sabe???), que lhe dê valor, que lhe dê amor e a faça feliz. E que ela conheça, mas nunca vivencie, o significado das palavras racismo ou preconceito.
Eis a lição que todos devemos aprender, importa o quanto somos racistas, se pretendemos e lutamos para mudar e melhorar. Mas se podemos não transmitir essa herança aos nossos filhos, já estaremos dando a eles a possibilidade de viver numa sociedade, mais justa, mais fraterna e mais igual. Respeitando sempre as diferenças.
Quanto a mim? Estou aprendendo, superando. Se não fosse casada, poderia me apaixonar por um negão, isso sim seria a redenção!!! Não para SER POLÍTICAMENTE CORRETA, mas para ser HUMANAMENTE MELHOR.
Durante todo esse mês a data será lembrada em diversos eventos que irão celebrar a memória histórica do movimento, da presença e da inserção do negro na vida brasileira.
Ontem assisti uma entrevista maravilhosa com Zulu Araújo, no programa Roda Viva da TV Cultura, eu não o conhecia, mas pretendo guardar seu nome como uma das mais sensatas, coerentes e corajosas lideranças negras de que já tive conhecimento. Dedicado à cultura negra desde a juventude, Zulu Araújo foi produtor de eventos culturais em Salvador nos anos 80 e 90 e assessor especial da secretaria de Cultura da Bahia. Em 2007, Zulu assumiu a presidência da Fundação Cultural Palmares, onde já trabalhava como diretor desde 2003. Sua entrevista foi brilhante, demonstrou conhecimento, daquilo que defende. O que é o mínimo que se pode esperar das lideranças, quais forem. Falou das questões controversas sobre as ações afirmativas dos direitos dos negros na sociedade, após anos de discrepâncias, deixadas como herança de 400 anos de escravidão no Brasil. Desmistificou, com dados estatísticos, os argumentos daqueles que se colocam contra essas ações sob o pretexto que elas mais acentuam as diferenças do que diminuem. Outro dia mesmo, fui indagada por um advogado Gaúcho com quem me avizinho, queria saber se sou a favor ou contra as cotas para Negros nas universidades, Disse que não tinha opinião formada e precisaria estudar, enfim, fugi do debate. Ele se colocou contra e deu lá suas justificativas que nada justificavam. Pois é muito fácil falar de coisas que não se conhece. Criticar medidas das quais não se necessita e ignorar que existe um problema real que não se combate com a hipocrisia de acreditar que no Brasil não existe racismo. EXISTE SIM! E está tão internalizado em nosso inconsciente coletivo que, muitas vezes, sequer o identificamos.
Não vim aqui defender o atacar o sistema de cotas ou qualquer outra ação afirmativa. Concordo apenas, que elas são necessárias e tem demonstrado eficácia, pois não podemos negar, que criaram acesso às universidades para centenas ou milhares de negros, que antes, não tinham nenhuma perspectiva de futuro (salvo raras exceções). Zulu, na entrevista, fala também, sobre a questão do "mestiscismo" no Brasil, como uma forma de branqueamento da população. É aquela famosa frase - Não, ele não é negro!!!É mulato, é moreno, marrom bombom e afins... Lembrou-me uma situação recente em que descrevi uma pessoa como negra, próximo a uma outra pessoa, que também a conhecia, e esta pessoa, imediatamente interveio dizendo - Ela é Mulata! Aí eu disse, meu amor para mim passou de seis horas já é noite!!! É claro que, num primeiro momento, a frase parece preconceituosa, e de fato é, mas a minha intenção era apenas dizer que negro é negro e não vejo nenhum demérito e nem porque dar outra denominação, no sentido de tornar aceitável a convivência com o fato de que uma determinada pessoa é negra. Cheguei a fazer uma comparação com o Obama, que dizem que é o primeiro presidente negro dos EUA, ela é da mesma cor que ele. É Mestiça, como a maioria dos brasileiros, portanto negra, como a eu e você. Na mesma ocasião, falamos sobre outras formas de preconceito e racismo que estão incutidas e arraigadas na nossa sociedade, contra, negros, judeus e etc. O uso de expressões do tipo: "Você nem parece judeu, é tão simpático", "Ele é negro, mas é gente boa!" Como se fosse isso, uma exceção, não a regra. São muitas as nuances sobre este tema, não poderia esgotá-lo aqui, quero apenas, dar-lhe uma abordagem pessoal.
Refleti muito sobre o assunto, me lembrei da minha mãe, era filha de negra, meu avô era loiro de olhos azuis, agente da polícia federal, trabalhou para a ditadura militar e declarava aos quatro ventos sua antipatia por negros e pobres. Mas se casou com uma negra e com ela teve três filhos. Minha mãe era loira, tinha sardas, quase uma dinamarquesa, não fosse, os lindos cabelos crespos. Bem crespos!!!! Contava-me que seu pai lhe passava as mãos nos cabelos e dizia: - Meu sonho era passar as mãos nos cabelos da minha filha e não agarrar nos cachos! Nem preciso dizer que isso a traumatizou profundamente. Tanto que não me lembro de nenhum dia da minha vida, enquanto ela esteve viva, que não tenha ouvido o barulho do secador, enquanto ela passava horas na frente do espelho com o firme propósito de passar as mãos por entre os fios lisos e ela não agarrar!!!!Ainda vivia me dizendo:- Se um dia você arrumar um marido de cabelo duro, não vem com neto sarará, que eu não vou fazer trancinha com barbante em ninguém!!!Eu sofri muito para melhorar o cabelo da família, (na ocasião meu cabelo ainda era naturalmente liso), para você fazer essa sacanagem comigo. Quando contei a ela que beijei um grande amigo negro que eu tinha (e ainda tenho), ela quase caiu dura e eu virei piada para o resto da família. Era: “vai ter filho macaco para lá, vai comprar bananas para, cá etc. Esse mesmo amigo, anos depois, foi responsável pela realização de um dos seus maiores sonhos, pouco antes dela vir a falecer”.
É claro que tudo isso também me afetou, até hoje, não me interesso (sexualmente) por negros (e isso é racismo). Gosto de homens brancos de olhos castanhos e cabelos lisos. No melhor estilo almofadinha, embora meu marido não tenha este estereotipo, como gosto não se discute. Acho muitos negros e negras lindos, outros nem tanto, alguns são bem feios mesmo. Bem como, tem uns negros e negras que gosto, admiro e quero muito bem e outros que não quero nem passar perto. Mas assim também é com muitos brancos, qual a diferença?
Ainda ouço coisas do tipo “não tenho nada contra os negros até falo com eles”. Pérolas de uma sociedade que aprendeu a conviver com o racismo como algo intrínseco. E muito negro, não sei se, para serem aceitos ou numa forma de não ampliar ainda mais a distancia, toleram, aceitam e riem deste tipo de situação. É o negro Brasileiro, que assiste a tudo passivamente. Aquele que não tolera, é inconveniente e anti-social ou mais vulgarmente conhecido como barraqueiro.
O racismo, a xenofobia, os preconceitos de toda ordem. São os grandes males da humanidade. É isso que nos torna tão inferiores aos outros seres da cadeia alimentar, é a intolerância com o diferente, com o que nos parece uma ameaça. É o que nos torna menos dignos de viver neste planeta com tanta diversidade. É o que tem detonado guerras, há séculos, entre as sociedades e seus povos. É o que tem nos feito propagar por gerações e disseminar entre os nossos filhos aquilo que temos de pior.
Não sei se, algum dia, poderei me livrar do meu racismo. Meu cabelo ficou crespo depois que cresci, andei alisando mais me arrependi e agora ando no melhor estilo Black Power branquela!!!Resolvi assumir os cachos, talvez seja um primeiro passo. Entre outras coisas, sempre procuro olhar as pessoas além dos meus preconceitos, permitir que elas sejam o que são, para depois saber se vale à pena ou não tê-las na minha vida e para isso não levo em consideração a cor da sua pele. Procuro não prejulgar.
Mas acho que a maior contribuição que posso dar para o fim do racismo, é não fazer nunca, qualquer comentário racista perto da minha filha de seis anos, nenhuma piada. Nada que lance uma semente de preconceito na sua mente tão fértil, para que este mal não germine no seu coração. É permitir que ela seja capaz de distinguir o que é bom ou ruim no ser humano sem estigmatizar ninguém. Disso eu posso me orgulhar. Outro dia fiquei imaginando como seria se ela chegasse em casa, daqui alguns anos, com um namorado negão com cabelo rastafari, fiquei tentando prever qual seria minha reação. Graças a Deus, que posso pensar nisso e me preparar para aceitar, faz parte de um processo que não pretendo negar, uma quebra de preconceitos e paradigmas. Eu poderia até fazer trancinhas com barbante nos cabelos dos meus netos, faria com amor. Mas ela não sabe, pois já seria uma semente de preconceito lançada. O que desejo mesmo, é que se negro ou branco, seja um homem (ou mulher??? Quem sabe???), que lhe dê valor, que lhe dê amor e a faça feliz. E que ela conheça, mas nunca vivencie, o significado das palavras racismo ou preconceito.
Eis a lição que todos devemos aprender, importa o quanto somos racistas, se pretendemos e lutamos para mudar e melhorar. Mas se podemos não transmitir essa herança aos nossos filhos, já estaremos dando a eles a possibilidade de viver numa sociedade, mais justa, mais fraterna e mais igual. Respeitando sempre as diferenças.
Quanto a mim? Estou aprendendo, superando. Se não fosse casada, poderia me apaixonar por um negão, isso sim seria a redenção!!! Não para SER POLÍTICAMENTE CORRETA, mas para ser HUMANAMENTE MELHOR.

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