quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Mundo ou a humanidade, quem acabará primeiro?

Quando a ECO 92 aconteceu no Rio de Janeiro, eu tinha apenas 13 anos e pelo menos para mim o tema ECOLOGIA era assunto novo e completamente distante da minha realidade. Na escola ainda se aprendia que a água era um recurso natural inesgotável.
Na ocasião do evento, o exército tomou conta da cidade e das ruas do bairro de subúrbio onde morava.
Lembro-me de na minha infância, olhar pela janela do meu quarto e avistar um imenso verde de um conjunto montanhoso que chamávamos de chapadão, lugar onde muitas vezes, íamos escorregar de papelão e os meninos também gostavam de ir para soltar pipas...
E vocês podem se perguntar por que deste intróito? Vou me explicar: Recentemente, fui convidada a participar de um evento promovido pela prefeitura do Rio, para professores e pais de alunos da rede municipal através do  Núcleo de Artes de Copacabana de onde minha filha é aluna a mais de 4 anos. O fórum entitulava-se: “Sustentabilidade e a Sala de Aula, Valores Éticos e Informação Cidadã”. Tinha como objetivo principal, elaborar uma carta de princípios escolares para um mundo sustentável com foco no Rio+20 que acontecerá no ano que vem. A proposta era de reunir  pais, professores e alunos na construção de um projeto pedagógico capaz de contribuir para  construção de hábitos e valores humanos capazes de influenciar e transformar comportamentos e modelos aprendidos, com vistas ao desenvolvimento sustentável.
Neste sentido houve erros e acertos, estes foram por conta da independência do evento que não se deixou influenciar pela politicagem eleitoreira da maioria dos eventos em que se envolvam a prefeitura e o governo do Rio, e também, dos palestrantes que trouxeram opiniões muito sensatas e pontos de vista distintos capazes de enriquecer o debate e estimular no interlocutor a reflexão.
Já os erros  se deram por conta da dinâmica do evento que convidou os responsáveis e alunos como meros expectadores, sem qualquer direito a manifestação, impondo uma participação passiva e inexpressiva, numa verdadeira panacéia.
O erro mais grotesco foi a retirada de pais e alunos do primeiro ciclo de palestras para a realização de oficinas de “corte e colagem”. Sob protestos, recuaram e permitiram o retorno. Deixou-me a impressão de que, ao entender dos organizadores do fórum, não seríamos capazes de compreender, e menos ainda, de contribuir com nada, numa clara demonstração de preconceito e elitismo. Pegou mal!
E por fim, sobre as impressões, como só pudemos participar do primeiro dia do evento, fiquei com e sensação de que não passou de chover no molhado, foram apresentados os mesmos e velhos problemas e as mesmas e velhas soluções, nada de novo para a tal carta de princípios.
E para não dizer que não falei das flores, foi empolgante a palestra de Sérgio Besserman com a idéia inovadora sobre o tema, e brilhantemente, definiu o evento em uma expressão: “É de grande importância este evento, onde tentamos ensiná-los algo que nem nós sabemos!” Perfeito.
Sobre as conclusões do primeiro ciclo de palestras a que mais me confortou foi a trazida pelo próprio Sérgio, que tentarei transcrever, segundo a minha compreensão. 
O Termo: Desenvolvimento sustentável é um conceito sistêmico que se traduz num modelo de desenvolvimento global que incorpora os aspectos de desenvolvimento ambiental. Foi usado pela primeira vez em 1987, no Relatório Brundtland, um relatório elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criado em 1983 pela Assembléia das Nações Unidas. A definição mais usada para o desenvolvimento sustentável é: ”O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais.”— Relatório Brundtland - Fonte: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Desenvolvimento_sustent%C3%A1vel). No Brasil começou a ser amplamente difundido após a realização da ECO 92.
Desmistificando deste conceito rígido, Bessermam, traz uma concepção nova sobre o termo, afirmando que o desenvolvimento sustentável é um processo, transitório, cíclico, pelo qual estamos passando e para o qual não existe uma definição conceitual, pois trata-se de um aprendizado constante, onde avaliamos as necessidades, sociais, econômicas e políticas e o modo como são atendidas, observando os resultados obtidos pela sua satisfação, e o grau de comprometimento para a satisfação das necessidades das futuras gerações.
A diferença entre os conceitos, reside no fato de que, possivelmente, jamais tenhamos um resultado objetivo para essas avaliações, pois como fazemos parte deste processo, como seres transitórios que somos, provavelmente não estaremos mais aqui quando o resultado definitivo acontecer, seja ele qual for.
Se deixarmos de lado esta visão megalomaníaca e onipotente de que podemos salvar o mundo, e adotarmos um pensamento de que em vez disto, podemos torná-lo um mundo melhor para se viver. Com foco na mudança de mentalidade, deixando de lado o modo egocentrista, consumista e poluente de satisfazermos as nossas necessidades e que tanto causam as misérias físicas, econômicas e espirituais. E isso só seria possível através da Educação.
Neste contexto, é que surge a importância do papel desempenhado pela escola, pelos pais e pela mídia. Muito mais do que a destruição do planeta, os modelos atuais estão causando a destruição dos homens, por conseqüência, da sociedade como um todo.
 Não há que se falar em aquecimento global, poluição, Escassez de recursos, nada será capaz de sensibilizar quem tem fome de pão, quem tem fome de direitos, quem tem fome de respeito, fome de oportunidades, quem tem fome de vencer as desigualdades econômicas e sociais. Nem seria justo dizer, que essas pessoas, não têm o direito de consumir nos mesmos moldes que os padrões de consumo atuais se dão.
A erradicação da pobreza como fator de degradação ambiental, não passa, ao contrário do que muitos pensam, por dar poder de compra aos pobres através das malfadadas "bolsa esmola" e crédito fácil e extorsivo. Isso só causa o endividamento pessoal e, a longo prazo, uma bolha que quando estourar, não se pode prever conseqüências...
Trata-se, no entanto, de possibilitar igualdade de oportunidades, educação e saúde de qualidade, de serem tratados com ética e respeito, e como conseqüência disso, eles próprios,  desenvolvem capacidades e habilidades para adquirir poder de compra consciente e sustentável.
Esta ética social, cultural e ambiental, só pode ser construída com a integração dos pensamentos, político, econômico e ambiental. Através da individualização das responsabilidades, da realização de ações de dentro do micro-sistema (família) para fora macro-sistema (sociedade), e de fora para dentro, dos Governos para os indivíduos..
De certo que não existe uma solução mágica capaz de salvar o planeta da destruição. Mas existem aquelas ações capazes de transformar os indivíduos que nele vivem, capazes de minimizar os impactos trazidos pelos modelos adotados até os dias atuais, esta deveria ser a real abordagem para o conceito de Desenvolvimento Sustentável.
Um movimento não-mecânico, para além das convenções econômicas, políticas, e de práticas "ecologicamente corretas". Mas de mudança de valores, padrões de comportamento, de educação e civilidade.
Antes da erradicação da pobreza, temos que erradicar a arrogância a prepotência das classes dominantes, dos grandes poluidores e suas políticas pseudo-compensatórias. Temos que  erradicar o aproveitamento econômico e eleitoreiro das causa ambientais por políticos e pelas falsas ONGs, que vendem “soluções” disfarçadas em projetos desprovidos de aplicabilidade prática e em descompasso com a realidade da maioria.
Como falar em fim do descarte do lixo em embalagens plásticas de supermercado, quando o saco de lixo biodegradável custa o valor de um dia de trabalho assalariado? Como falar em redução do consumo de combustíveis fosseis, para os passageiros de ônibus, trens e metrôs, enquanto os ricos, andam em seus carros mega-poluentes? O nome que se dá a isso é hipocrisia.
Para se falar em Desenvolvimento Sustentável, é preciso falar em educação Sustentável, valorização do professor e da escola pública.  Acabar com a privatização de  serviços essenciais como saúde e educação que são dever do Estado.
O meio-ambiente saudável é direito de todos, garantido pela constituição. E a proteção do micro e do macro-sistema, é um dever global e também local. Propriedade de todos, não é , nunca foi, terra de ninguém!
E neste ponto retomo o meu intróito, que agora parece tão distante.A Eco 92 trouxe muita teoria e pouca prática, de lá para cá todo o mal que poderia ter sido causado foi. 
O Chapadão virou favela, o meu bairro perdeu toda a leveza e se transformou num subúrbio esquecido e melancólico.
Que a Rio+20, nos deixe algo além de teorias alarmistas e catastróficas e falsos ecologistas oportunistas, que nos deixe diretrizes concretas e metas realizáveis para além da utopia de salvar o planeta. É preciso salvar os Homens.
Por que “ao fim do mundo e do amor só as baratas sobreviverão.” (Michel Mellamed)

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